O meu avô sempre dizia que o melhor da vida haveria de ser ainda um mistério e que o importante era seguir procurando. Estar vivo é procurar, explicava. Quase usava luvas e binóculos mapas e ferramentas de escavação, igual a um detetive cheio de trabalho e talentos. Tinha o ar de um caçador de tesouros e, de todo modo, os seus olhos reluziam de uma riqueza profunda. Percebíamos isso no seu abraço. Eu dizia: dentro do abraço do avô. Porque ele se tornava uma casa inteira e acolhida. Abraçar assim, talvez porque sou magro e ainda pequeno, é para mim um mistério tremendo. Página 6, 7
Era um detective de interiores, queria dizer, inspecionava sobretudo sentimentos. Quando perguntei porquê, ele respondeu que só assim se fala verdadeiramente acerca da felicidade. Para estudar o coração das pessoas é preciso um cuidado cirúrgico. 8,9
De cada vez que a nossa cabeça resolve um problema aumentamos de tamanho. Podemos chegar a ser gigantes, cheios de lonjuras por dentro, dimensões distintas, países inteiros de ideias e coisas imaginárias. 10,11
Eu queria ser sagaz, ter perspicácia, estar sempre inspirado. O meu avô pedia que não me desiludisse. Quem se desilude morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantado. O encanto é a única cura possível para inevitável tristeza. Havia, às vezes, um momento em que discutíamos a tristeza. Era fundamental sabermos que aconteceria e que implicaria uma força maior. 12,13
Inventar perguntas e aprender. Quem não aprende tende a não saber perguntar. Muita gente não tem sequer vontade de ouvir. Fica do tamanho de uma ervilha, no que às ideias de respeito. 14,15
Aprendi que o dinheiro tem valor em troca de muita coisa, mas muita coisa só tem valor, se for de graça. Aprendi que o preço é quase sempre o lado corrompido do valor. 16,17
Aprendi que a minha vó ficou doente e precisou de morrer. Por causa de estar muito doente, a avó precisara de morrer para ficar sossegada. Não lhe poderíamos falar, mas ela seria um patrimônio dentro de nós, uma recordação que a saberia manter como viva. Meu avô corrigiu: podemos falar com ela, ela vai responder de modo diferente. Sua resposta é a nossa própria ideia. 18,19
Perguntei se o avô não iria entristecer demasiado. A minha mãe respondeu que sim. Todos sentiríamos uma profunda tristeza. Ele decidiu teríamos de procurar a felicidade naqueles tempos mais difíceis. Se esperarmos um dia a tristeza dá lugar a celebração. Íamos aprender a celebrar a avó. Mas nunca esperaríamos quietos. A quietude é uma cerimónia do pensamento, mas logo é fundamental bulir. Fazer qualquer coisa. 20, 21
O meu avô reparava em como ela (a vizinha) escolhia sempre pelo coração. Tinha uma inteligência apenas amorosa. Podia dar muito erro para as ciências, mas haveria de garantir--lhe a felicidade quando rapaz casadoiro a descobrisse. 22, 23
Nesse tempo, meu avô perguntou quais seriam as mais belas coisas do mundo. Eu não soube dizer. Pensei que poderiam ser os filhotes de cão, alguns gatos, o fim do sol, o verão inteiro, o comportamento dos cristais, a muita chuva, a cara das mulheres, o circo, os lobos, as casas com chaminé, o cimo da montanha, a nuvem que vimos igualzinha a um avião, o quadro pintado pendurado na sala, perfeitinho, mesmo que as árvores inclinassem um bocado tortas. (...) Ele sorriu e quis saber se não haviam de ser a amizade, o amor, a honestidade, a generosidade, o ser-se fiel, educado, o ter-se respeito por cada pessoa. Ponderou se o mais belo do mundo não seria fazer-se o que se sabe e pode para que a vida de todos seja melhor.
- AS MAIS BELAS COISAS DO MUNDO, Valter Hugo Mãe
24,25, 26, 27
Para beleza é imperioso acreditar. Quem não acredita não está preparado para ser melhor do que já é. Até para ver a realidade é importante acreditar. A minha mãe disse que eu virei um sonhador. Para mudar o mundo, sei bem, é preciso sonhar acordado. Apenas os que desistiram guardam o sonho para o tempo de dormir. 30, 31
há uma felicidade para os tempos difíceis. Sei que é importante seguir à sua
O meu avô sempre dizia que o melhor da vida haveria de ser ainda um mistério e que o importante era seguir procurando. Estar vivo é procurar, explicava.
ResponderExcluirQuase usava luvas e binóculos mapas e ferramentas de escavação, igual a um detetive cheio de trabalho e talentos. Tinha o ar de um caçador de tesouros e, de todo modo, os seus olhos reluziam de uma riqueza profunda. Percebíamos isso no seu abraço. Eu dizia: dentro do abraço do avô. Porque ele se tornava uma casa inteira e acolhida. Abraçar assim, talvez porque sou magro e ainda pequeno, é para mim um mistério tremendo.
Página 6, 7
Era um detective de interiores, queria dizer, inspecionava sobretudo sentimentos. Quando perguntei porquê, ele respondeu que só assim se fala verdadeiramente acerca da felicidade. Para estudar o coração das pessoas é preciso um cuidado cirúrgico.
8,9
De cada vez que a nossa cabeça resolve um problema aumentamos de tamanho. Podemos chegar a ser gigantes, cheios de lonjuras por dentro, dimensões distintas, países inteiros de ideias e coisas imaginárias.
10,11
Eu queria ser sagaz, ter perspicácia, estar sempre inspirado. O meu avô pedia que não me desiludisse. Quem se desilude morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantado. O encanto é a única cura possível para inevitável tristeza. Havia, às vezes, um momento em que discutíamos a tristeza. Era fundamental sabermos que aconteceria e que implicaria uma força maior.
12,13
Inventar perguntas e aprender. Quem não aprende tende a não saber perguntar. Muita gente não tem sequer vontade de ouvir. Fica do tamanho de uma ervilha, no que às ideias de respeito.
14,15
Aprendi que o dinheiro tem valor em troca de muita coisa, mas muita coisa só tem valor, se for de graça. Aprendi que o preço é quase sempre o lado corrompido do valor.
16,17
Aprendi que a minha vó ficou doente e precisou de morrer. Por causa de estar muito doente, a avó precisara de morrer para ficar sossegada. Não lhe poderíamos falar, mas ela seria um patrimônio dentro de nós, uma recordação que a saberia manter como viva. Meu avô corrigiu: podemos falar com ela, ela vai responder de modo diferente. Sua resposta é a nossa própria ideia.
18,19
Perguntei se o avô não iria entristecer demasiado. A minha mãe respondeu que sim. Todos sentiríamos uma profunda tristeza. Ele decidiu teríamos de procurar a felicidade naqueles tempos mais difíceis. Se esperarmos um dia a tristeza dá lugar a celebração. Íamos aprender a celebrar a avó. Mas nunca esperaríamos quietos. A quietude é uma cerimónia do pensamento, mas logo é fundamental bulir. Fazer qualquer coisa.
20, 21
O meu avô reparava em como ela (a vizinha) escolhia sempre pelo coração. Tinha uma inteligência apenas amorosa. Podia dar muito erro para as ciências, mas haveria de garantir--lhe a felicidade quando rapaz casadoiro a descobrisse.
22, 23
Nesse tempo, meu avô perguntou quais seriam as mais belas coisas do mundo. Eu não soube dizer.
Pensei que poderiam ser os filhotes de cão, alguns gatos, o fim do sol, o verão inteiro, o comportamento dos cristais, a muita chuva, a cara das mulheres, o circo, os lobos, as casas com chaminé, o cimo da montanha, a nuvem que vimos igualzinha a um avião, o quadro pintado pendurado na sala, perfeitinho, mesmo que as árvores inclinassem um bocado tortas.
(...) Ele sorriu e quis saber se não haviam de ser a amizade, o amor, a honestidade, a generosidade, o ser-se fiel, educado, o ter-se respeito por cada pessoa. Ponderou se o mais belo do mundo não seria fazer-se o que se sabe e pode para que a vida de todos seja melhor.
- AS MAIS BELAS COISAS DO MUNDO, Valter Hugo Mãe
24,25, 26, 27
Para beleza é imperioso acreditar. Quem não acredita não está preparado para ser melhor do que já é. Até para ver a realidade é importante acreditar. A minha mãe disse que eu virei um sonhador. Para mudar o mundo, sei bem, é preciso sonhar acordado. Apenas os que desistiram guardam o sonho para o tempo de dormir.
30, 31
há uma felicidade para os tempos difíceis. Sei que é importante seguir à sua